A
análise do
Robert
de Beaugrande
•
RESUMO: Este trabalho apresenta considerções gerais sobre a evolução da Análise
do Discurso e trata, especificamente, da sua relação com a situação política
e sócio-econômica brasileira no 1996. Sao feitas observações sobre o
discurso público no ‘pais do mercado livre’ e é analisado o ‘discurso
transcendental’ de uma peça publicitária de uma empresa multinacional. A análise
apresentada objetiva ligar os sentidos do texto às condições do pais. É um
estudo de caráter ‘crítico’ que está a serviço de uma ideologia ‘ecológica’,
ou seja, que afirma o valor da vida do homem através da busca de sua preservação
num ambiente humano. Tenta mostrar umas estratégias utilizadas na construção
do texto, com o propósito de sensibilizar as pessoas para escolhas entre o
consumismo e o ecologismo.
1.
A evolução da Análise do Discurso
O
desenvolvimento da análise do discurso pode ser visto por dois ángulos, de um
lado a discipline teve uma evolução separada das disciplines vizinhas, tais
como a Lingüistica, a Antropologia e a Sociologia. Nesta visto, foi
principalmente um empreendimento para ajudar estudiosos de discurso
transdisciplinar a resolver problemas práticos, na busca e interpretação de
dados discursivos, mas esta visão é simples demais e não corresponde à história
atual, contudo a ênfase prática da Análise do Discurso merece nossa atenção.
De
outro lado,
a Análise do Discurso foi uma discipline que se desenvolveu para resolver
problemas teóricos e práticos dessas outras disciplines. O problema principal
foi, sem dúvida nenhuma, a famosa separação ja feita no Curso de Lingüística
Geral de Ferdinand Saussure entre ‘lingua’ e ‘fala’. O problema começa
com o fato de que a lingua mesma não se apresenta como fenómeno humano; é-o
sempre só a fala. A solução proposta para a lingüística saussuriana foi a
de reconstruir a lingua como sistema idealizado e abstrato. Esta estratégia deu
bom resultado somente no campo da fonologia, onde é fácil descrever as
unidades fundamentais e mínimas com base na articulação humana.
Já
na morfologia a descrição das unidades minimas de formas que têm sentido
gerou problemas bastante dificeis, graças à quantidade dessas formas nas
diversas linguas. Um católogo dos morfemas de uma lingua teria que incluir
todos os pedaços das palavras, isto é, a totalidade do vocabulario, além de
todas as flexões nominais, verbais, etc. A solução
preferida foi limitar o campo da morfologia aos subsistemas menores, bem
organizados e fechados, tal como essas flexões verbais mesmas. As raizes
nominais e verbais foram entregues ao campo da lexicologia, que ficou
marginalizado na lingüística devido à grande variabilidade dos lexemas.
Os
problemas, no campo da sintaxe, ficaram ainda mais dificeis no que diz respeito
à utilização de soluções que deram resultado na fonologia. As unidades da
sintaxe não são bem organizadas nem mínimas e é impossivel dizer quantas
frases e expressões uma lingua pode ter, ao contrário da fonologia e
morfologia, cujas unidades são representadas nos dados transcritos.
Naquela
época, a Lingüística sofreu uma importante mudança, pois uma lingua só era
definida como um sistema ou uma combinação de sistemas de unidades mínimas
bem organizadas. A partir de então, a lingua foi definida como um sistema de
regras de formaçao e transformação, no qual, obviamente, estas regras não
aparecem representadas nos dados transcritos. Foi quando os lingüístas
postularam um nível de ‘estrutura subjacente’, que foi o lugar de aplicaçao
das regras. A estrutura superficial foi somente o resultado final desta operaçao.
A
liberdade de inventar sistemas de regras levou a uma nova situaçao, na qual vários
grupos de lingüístas inventaram uma quantidade de sistemas diferentes e
tentaram estabelecê-los através da polêmica acadêmica. Até hoje, nenhum dos
sistemas de regras ganhou base empírica. Ao contrário, a tendência foi de
inventar sistemas cada vez mais formalizados e mais longe dos dados do discurso
observado na conversação
cotidiana.
Uma
tentative para resolver essa situaçao foi convidar a semántica, que até então
tinha ficado à margem da lingüística
e dentro da filosofia, para fazer o papel de fonte de mais regras formais. As
unidades básicas desta semántica foram os ‘traços semánticos’, que foram
imaginados como unidades minimas de sentido, que, ao contrário da fonologia com
as unidades de sons (fonemas), ninguém sabia como achar e definir as unidades
semánticas. As poucas demonstrações foram pouco convincentes, e o consenso
dos lingüístas, que já havia sofrido grandes prejuizos na sintaxe formal,
acabou quase que inteiramente.
Chegou
a hora da pragmática, quer dizer, da pesquisa do uso da lingua, exatamente o
aspecto que foi excluido no Curso de Lingüística Geral. Naturalmente
foi bastante problemático introduzir um campo de pesquisa num ambiente teórico
que antigamente nada tinha a ver com o uso de linguagem, daí ter sido a pragmática
definida de uma maneira muito limitada. Para exemplifier, consideremos o
problema do falante nativo. Na fonologia, o falante nativo era quem tinha o
conhecimento dos sons da sua lingua e, portanto, a capacidade para compreender
os sons teóricos da lingua, apesar das variações na produçao de pessoas
diferentes, lugares diferentes, etc. Já na morfologia, o falante fazia uso dos
sistemas de flexões verbais, nominais, etc., sem o conhecimento analítico ou
histórico desses sistemas. Na sintaxe é ainda mais na semántica, o falante
sabe a lingua da comunidade perfeitamente, não se atrapalhando em nenhuma
circunstancia ou situação, apenas talvez com limitações de memória —
torna-se, efetivamente, um robo automatizado.
A
pragmática foi obrigada então a basear-se em análises s dos ‘atos de
fala’, nos quais os participantes eram falantes idealizados, sem identidade
social e muito menos personalidade particular. Esta estratégia assegurou a
entrada bem-vinda da pragmática na lingüística formal, mas também impediu a
possibilidade de reintrodução da realidade cognitiva e social dos
comunicadores. Tenho a impresão de que os lingüístas mais interessados na Análise
do Discurso tiveram a sensação de ter perdido contato com a realidade da
comunicação e reagiram contra uma eleição extremamente exagerada é o
projeto que tenta resgatar ‘terra firme’ para os estudos dos grandes
problemas pessoais e sociais associados ao discurso real.
A
meu ver foi uma coincidência vários grupos diferentes terem chegado a essa
conclusão mais ou menos na mesma época, e talvez por isso tenham tido
concertos e métodos bastante diversos, como por exemplo, na Inglaterra, na França,
na Alemanha, nos Estados Unidos, etc. No caso do Brasil, a Análise do Discurso
recebeu um impulso importante da Educaçao
Libertadora da obra de Paulo Freire (Freire, 1980). Ele enfrentou o problema da
alfabetização e foi o primeiro pesquisador a compreender a necessidade de
fazer seu projeto com uma ligação entre a teoria e a prática. Na teoria, a
alfabetização pode ser analisada do ponto de vista fonológido, morfológico,
sintático, semântico e até pragmatico, e cada análise chega a resultados
diferentes e mesmo incompativeis do mesmo jeito que a lingüística moderna
tratou a linguagem em niveis separados na tentativa de fazer uma análise mais
rigorosa.
Ao
contrário dos lingüístas norte-americanos, Freire compreendeu a necessidade
de uma interação continua e dialética entre a teoria e a prática. Enquanto
os norte-americanos elaboravam uma teoria cada vez mais longe da prática, ele
enfrentou a prática como desafio e construiu uma teoria praticável. E não foi
à toa que sua obra teve como fundamento teórico exatamente os mesmos
pensadores que trabalharam na Análise do Discurso da Escola Francesa, tais como
Jean-Paul Sartre e Michel Foucault.
2.
Análise critica do discurso
Depois
dessa curta retrospective sobre o desenvolvimento da Análise do Discurso,
podemos considerar suas relações possiveis com a realidade brasileira e a
situação acadêmica neste pals. Tenho a impresão de que a Análise do
Discurso representa um campo de grande atividade atualmente — impressão que
foi confirmada durante minha participaçao no Congresso do CELSUL em novembro de
1995.
O
que ainda está faltando, no meu modo de ver, é uma consolidação
transdisciplinar e interuniversitária para montar projetos de porte adequado a
este período de desenvolvimento social. Nesta seçao, oferecerei algumas sugestões
de tais projetos, que parecem bastante urgentes para o futuro.
O
assunto mais importante parece-me ser o papel
do discurso público,
num pais que evoluiu de uma ditadura militar para uma república sem resolver os
problemas da maioria do povo, que continua vivendo na miséria e na fome.
Evidentemente, há métodos para garantir os mesmos extremos da desigualidade
sem fazer uso da força e da violência que simbolizam a ditadura. Vale
ressaltar que o motivo principal para o golpe de Estado em 1964 foi a ascensão
de um govemo de verdadeiros sentimentos trabalhistas. Foi assim em muitos outros
paises na América Latina, quando as democracias diversas chegaram ao poder
através de um resultado que realmente representava a vontade da maioria do
povo.
O
que foi diferente no caso do Brasil foi o fim muito lento da ditadura, passando
por uma série de quase-democracias, até chegar a um estado aparentemente livre
do controle dos generais que comandavam a ditadura — ao contrário, por
exemplo, da Argentina, onde a ditadura caiu quase da noite para o dia, por causa
da guerra desastrosa contra a Inglaterra nas Ilhas Malvinas.
O
aspecto mais relevante aqui foi a volta da liberdade no discurso público.
Anteriormente, estritamente controlado pelo Governo e pela policia, ia de
encontro ao discurso dos direitos humanos; o discurso sobre os direitos dos
trabalhadores, especificamente, era extremamente ‘subversivo’. Hoje, o próprio
governo ‘neoliberal’ faz uso da palavra todos os dias para expresser suas
boas intenções e sua preocupação com todas as classes sociais e respeito à
saúde, educação, emprego, segurança e agriculture. Quero ressaltar que a
democratização
do Brasil durante a transformação da ditadura em democracies foi
principalmente cumprida na teoria do discurso público, de tal maneira a deixar,
na prática social, a estrutura do pais preservada. Ét um discurso totalmente
mistificado face à realidade brasileira: a maioria da população tem o direito
de falar o que pensa, mas muitas vezes não tem a possibilidade de freqüentar a
escola, de ir ao médico, de adquirir terra para cultivar e até mesmo
trabalhar:
O
Ministro do trabalho está negociando com o Congresso a implantação do
contrato de trabalho por tempo determinado […] O trabalhador poderá assinar
um contrato com tempo pre-estabelecido, no máximo até dois anos com direito a
recolhimento do FGTS e décimo terceiro salário, mas sem direito a pagamento de
aviso prévio e a indenização de 40% sobre o valor disponivel no Fundo de
Garantia, pagos em caso de demissão. No ministirio todos estao convencidos de
que esta é a maneira mais barata e eficiente de arranjar espaço para jovens no
mercao de trabalho. ‘É preciso reparar a era de Vargas’ diz o Ministro do
Trabalho. (Isto É, janeiro 1996, p. 88)
Esta
relação
entre a realidade dos feitos e o discurso do Governo é muito típica. É um
plano simplesmente cosmético — e aliás ‘barato’! — que, em vez de
reduzir o desemprego no pais, simplesmente vai distribuí-lo entre um maior número
de trabalhadores. Mas o Ministro defende a proposta, sem falar da miséria que
vai produzir para os velhos, arranjando espaço apenas para os jovens. Parece
assim um plano de alta consciência social, mas, na realidade, vai piorar a
situaçao dos trabalhadores mais velhos, que têm cada vez menos chance de
concorrer no ‘mercado livre’ de trabalho. O discurso ‘neoliberal’
apresenta prejuizos para os trabalhadores como se fossem significativos benefícios.
3.
Demonstração: O discurso das multinacionais
É
fácil reconhecer a contradição no discurso das multinacionais. Observe-se o
texto abaixo, que um exemplo muito tipico:
[1]
Quando alguém realiza alguma coisa é movido por um instinto comum a todo ser
humano.
[2]
Desde uma criança em seus primeiros rabiscos, até uma grande empresa
multinacional.
[3]
É um instinto tão vital como respirar.
[4]
É como dar o passo seguinte e fazer tudo ainda melhor, não importa o que seja.
[5]
Na busca do conhecimento, nós criamos, aperfeiçoamos, progredimos.
[6]
E, fazendo isso, estamos tornando o mundo um lugar melhor.
[7]
Não importa se somos crianças aprendendo a desenhar melhor, cientistas fazendo
melhores remédios, políticos fazendo leis melhores ou industrias fazendo
produtos melhores.
[8]
Todos, em algum lugar, de alguma former, está fazendo alguém mais feliz […].
[9]
Embora sejamos conhecidos por fazer melhores coisas, daqui por diante
queremos ser conhecidos também por fazer as coisas melhores (Veja,
6 set. 1995, p. 124).
Segundo
a pesquisa louvável Tereza Halliday (1987), podemos caracterizar esse exemplo
como parte do discurso
transcendetal,
quer dizer, um discurso que justifica os motivos dos falantes, referindo-se a
valores universais bem longe dos problemas cotidianos e as motivações
particulares. Neste caso, já no primeiro enunciado, fala-se dos ‘instintos
comuns a todos os seres humano’s, uma generalidade que esconde a mentira dessa
formulação tão geral.
O
discurso multinacional tem por objetivo comunicar uma sensação de
solidariedade entre as grandes empresas estrangeiras e o consumidor médio
brasileiro. Veremos que este discurso tenta chegar a esse objetivo com uma
variedade de recursos gramaticais, lexicais e discursivos.
Na
superficie, o texto parece muito inocente, mas sua mensagem esta oculta, além
de ser dificil de se acreditar, prejudice a sensibilidade do brasileiro, pela
situação económica que se esconde sob o discurso neo-liberal da
‘democracia’ e do ‘mercado livre’: a teoria inclusive sempre em conjunto
com a prática exclusive (Beaugrande, 1997). Na teoria, todos os cidadãos
possuem os mesmos direitos humanos e a oportunidade de trabalhar e receber salários
dignos no ‘mercado livre’; na prática, a sociedade é terrivelmente
fragmentada, com extremos contrastes entre o supérfluo e o luxo da elite de um
lado e a pobreza e a miséria da maioria de outro. Na teoria, o ‘crescimento
económico’ vai para as contas de todos os cidadaos do pais, mistificando os
mecanismos de distribuição; na prática, a expressão ‘mercado livre’
parece indicar que o cidadão julga o sucesso do governo vendo só os fatores
globais, sem ver sua situação particular. Dessa maneira foi possivel que uma série
de governos, a serviço da elite, ganhasse eleições com os votos de grupos
sociais, cuja situação ficou a mesma ou até pior.
A
análise
critica do discurso
dedica-se a ligar o sentido de um texto que parece bastante simples à condição
social e económica muito complicada de um pais. Sabe-se que, na década de 60,
uma série de informações apontou o grande prejuizo causado pelas
multinacionais no ‘terçeiro mundo’ — más uma boa motivação pro golpe
militar. Entre outros, os seguintes foram constatados. As multinacionais:
1)
tiram muito mais do que dão ao pais;
2)
usam modos de competição, tais como a venda de produtos abaixo do custo de
produção, para impedir a concorrência das empresas nacionais;
3)
impedem o desenvolvimento da tecnologia nacional, substituindo-a nos setores
mais avançados;
4)
usam propaganda para comunicar a mensagem de que só os produtos importados têm
valor, contribuindo para a ansiedade e os sentimentos de inferioridade dos cidadãos;
5)
usam propaganda para despertar o consumo de supérfluos, encorajando a elite a
explorar o povo com ainda mais energia, para financiar mercadorias não necessárias;
6)
ignoram regulamentos de segurança social, proteção da saúde no trabalho, e
proteção do meio ambiente.
Com
todas estas estratégias e efeitos, as multinacionais podem explorar não
somente a estrutura económica, geografica ou política do pais, como também os
consumidores e mesmo os trabalhadores.
Observe-se
o texto mais de perto. É típico no discurso transcendente o uso de palavras
com sentido muito geral. Temos, por exemplo, expressões como: ‘alguem, alguma
coisa, algum lugar, alguma forma, todo ser humano, fazer tudo ainda melhor,
tornando o mundo um lugar melhor, fazer as coisas melhores’. Tais expressões
colocam as atividades das multinacionais num quadro como parceiros benfeitores
de todo o mundo, onde estão principalmente empresas humanísticas, que fazem
negócios apenas para ganhar o dinheiro necessário para ‘melhorar a vida de
todos’. Naturalmente, declarações totalmente falsas aparecem. Por exemplo,
ao contrário do que diz na linha [1], pessoas ‘realizam’ muitas coisas que
não solo movidas de nenhum jeito por um ‘instinto comum’, mas por motivos
idiossincráticos ou simplesmente por engano. E a criaçao de uma empresa
multinacional deve ser uma coisa seguramente longe dos ‘instintos de todos os
seres humanos’.
A
lista dos agentes na linha [2] é bem interessante: ‘criança’ e ‘grande
empresa’ são colocadas juntas para a associação da inocência e da fraqueza
da criança ao lado da fortissimo e culpadissima empresa. A linha [7] apresenta
uma lista de agentes e atividades, usando o paralelismo sintático para sugerir
uma relação semântica bem íntima entre ‘crianças, cientistas, politicos e
indústrias’. Cada um está fazendo alguma coisa que parece ser pelo menos
inocente no caso da criança, e benéfico no caso dos cientistas e políticos.
Mas a escolha dos agentes não é nada inocente. A criança que estava fazendo
os ‘primeiros rabiscos’ [2] está agora ‘desenhando melhor’ [7], quer
dizer: fazendo algo semelhante à empresa multinacional, como se fosse destinada
a ser empregada dessa empresa e desenhar fábricas ou produtos. Os cientistas
estão ‘fazendo remédios melhores’, o que não pode ser uma atividade
reprovável; mas para entender a ligaçao, precisa-se saber que quase todos os
remédios no Brasil são produtos das multinacioriais e que, além disso, são tão
caros que pessoas pobres simplesmente não têm condições de adquirí- los.
Quanto aos ‘politicos fazendo leis melhores’, à primeira vista, no contexto
brasileiro só pode ser piada cínica. São exatamente as leis que são
‘melhores’ para as multinacionais, por exemplo, leis que permitem que
empresas estrangeiras não paguem a segurança social, uma prática que já tem
uma longa história no Brasil; ou seja, leis para diminuir a área de florestas
protegidas e para entregar uma área ainda maior à exploraçao das
multinacionais. Assim, na superficie, parece uma ligação justificada entre as
atividades científicas e politicos e a produçao de melhores produtos, sem
falar que esses produtos vão ter os preços mais altos. Mas, na mensagem
oculta, como vemos, as atividades industrials têm uma ligaçao bem mais
sinistra, como as leis e os remédios produzidos para os outros.
O
assunto é parecido com a lista de atividades associadas. Essa série começa
com: ‘fazer tudo ainda melhor’ [4]. A seguir a atividade transformar-se-á
na ‘busca de conhecimento’ [5], outra atividade impossível de reprovar-se.
Depois vem uma série que parece fora da seqüência lógica: ‘criamos,
aperfeiçoamos, progredimos’. Seria mais lógico que a ‘perfeiçao’, sendo
o ápice, fosse também colocada no final; mas já que o ‘progresso’ é a
palavra chave das multinacionais, é vantajoso fazer parecer que produzir
progresso (em ‘progredimos’) é ir além da perfeição. No mito de cientismo,
o progresso não pode senão ‘tomar o mundo inteiro um lugar melhor’, É
isso exatamente o próximo passo discursivo [6]. O mito do consumismo diz
que fazer o progresso é a mesma coisa que ganhar produtos melhores e este é o
único caminho para chegar-se à felicidade; por isso, não surpreende que apareça
o conjunto ‘maior felicidade’ na linha [8].
Resta
apenas o jogo de palavras em [9], que dá, como pressuposição, o efeito aceito
por empresas conhecidas por fazerem melhores coisas, como se isso fosse
diretamente ligado a ‘fazer as coisas melhores’, quer dizer exatamente
‘tornar o mundo um lugar melhor para todos os seres humanos’, e não, como
na verdade, fazer um mundo melhor para a empresa que está fazendo a propaganda.
Pode ser difícil acreditar em tudo isso, mas a elite e a burguesia brasileiras,
que se negam a ajudar a acabar com a pobreza e a miséria do povo, têm uma
forte motivação para tal, pois, assim, podem aliviar sua mã consciência com
a idéia de que as poderosas multinacionais vão resolver os problemas económicos
e sociais, exatamente como o texto promete fazer.
4.
Conclusão
Esta
curta análise de um texto típico do discurso transcendental das multinacionais
pode dar uma idéia da ideologia que se chama ‘crítica’. Ao contrário de
cientistas ‘clássicos’, que afirmam deixar a ideologia fora de seu
trabalho, a análise
critica do discurso
afirma o caráter ideológico de todas as atividades e discursos includes nas ciências.
Sendo assim, afirmamos também o caráter fortemente ideológico do nosso método,
mostrando que age a serviço de uma ideologia do ecologismo, quer
dizer, uma ideologia simples, afirmando o valor da vida humana e buscando
caminhos para uma vida sustentável no meio ambiente e no ambiente humano. A
finalidade da análise é mostrar as estratégias do discurso e ligá-las à
ideologia que envolve o discurso. O objetivo, a longo prazo, é restabelecer o
equilibrio entre os participantes do discurso e chegar a um nivel de maior
sensibilidade frente às ideologies no discurso. Nesse nivel, o cidadão será,
enfim, capaz de fazer uma escolha ‘ecologista’, contra o consumismo e para o
ecologismo; contra o egoismo e para a comunidade; contra o poder e para a
solidariedade; contra o confronto e para a cooperação.
REFERENCIAS
BIBLIOGRAFICAS
BEAUGRANDE,
Robert de. New Foundations for a Science of Text and Discourse. Norwood:
Ablex, 1997.
FREIRE,
Paulo. A conscientização. São Paulo: Moraes, 1980.
HALLIDAY,
Tereza. A retórica das multinacionais: A legitimação das organizações
pela palavra. São Paulo: Summus, 1987.
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